Skip navigation

A Pátria de Raimundo
Por: Renato Cardoso.

Tudo começou na cidade de São Bento da Lavoura. Cidade típica do interior brasileiro, de gente honesta e muito simples. A cidade se sustenta da lavoura. É nesta cidade que mora a minha família. Meu pai se chama Oswaldo. Sujeito rústico, trabalhador e honesto. Ele tem uma feição antiga, embora só tenha 39 anos, usa sempre roupas velhas que ele recebe de doação. Ele trabalha na lavoura, ficando lá o dia todo. Meu pai tem um problema muito grave, ele bebe muito e isso está atrapalhando o casamento dele com a minha mãe.
E por falar na minha mãe, ela se chama Maria, ela é uma mulher infeliz e amarga, devido à vida dela ser dura desde a infância. Ela tem cabelos grandes, olhos tristes e sempre usa o mesmo vestido, pois não tem outro. Ela fica em casa com meus irmãos e faz artesanato com palha para ganhar algum trocado a mais. Ela não acredita que a vida dela possa melhorar. Ela tem quatro filhos com meu pai.
A vida deles é muito difícil, sempre falta alguma coisa, mas graças a alguns vizinhos como a Senhora Benedita, senhora bondosa que sempre está disposta a ajudar quem necessita de algo, minha mãe e meus irmãos nunca passaram fome.
Um dia meu pai chegou em casa com a história de que ia para capital para ganhar dinheiro. Ele realmente saiu de casa dizendo que ia para capital, mas depois nunca mais minha mãe o viu e nem soube mais nada sobre ele. Todos falam que meu pai está na cidade vizinha morando com uma outra mulher com quem ele tem mais dois filhos, mas isso ninguém nunca vai saber se é verdade ou não.
Três meses após meu pai ir embora, minha mãe descobriu que estava grávida de mais um filho. Esse filho sou eu. Ela entrou em desespero, pois não sabia como seria capaz de criar cinco filhos sozinha. Então, ela tomou uma decisão. Ela resolveu abandonar todos os seus filhos. Os dois maiores ela deixou em um orfanato e os dois menores ela deixou com uma prima que morava longe. Eu já estava com meu rumo garantido.
Ela me entregará a primeira pessoa que ela vê passar em sua frente.
Seis meses se passaram, minha mãe está prestes a dar a luz. A noite está calma como nunca antes visto. As ruas estão desertas, pois todos estão reunidos na tenda do Seu José para ver o jogo da Seleção Brasileira que irá passar na televisão.
As dores do parto começaram. Minha mãe está em casa sozinha. Ela começou a gritar por alguém, mas ninguém a escutou. Só que naquele momento uma moradora de rua estava passando em frente à casa da minha mãe e a escutou. O nome dela é Helena. Ela tem um defeito na perna, marca de alguém que lutou muito na vida, e um olhar forte que passa confiança a todos que olham para ela.
Dona Helena entrou e viu minha mãe deitada na cama. Minha mãe perguntou:
-Quem é você?
-Eu escutei seus gritos e vim te ajudar. Agora fique calma e faça força.
Minha mãe não estava mais agüentando de dor. Mas não demorou muito para eu nascer. Dona Helena emocionada olhou para minha mãe e disse:
-É um menino forte e saudável.
Só que Dona Helena não sabia que minha mãe não queria aquele filho que acabara de nascer. Minha mãe disse para a Dona Helena:
-Pode ficar com ele. Eu não quero esse filho. Ele não me traz felicidade.
-Que isso minha senhora! Não fale assim. È apenas uma criança. Eu vou deixá-lo aqui, pois a senhora não sabe o que diz.
No dia seguinte a Dona Helena voltou à casa da minha mãe e do portão escutou meu choro. Ela resolveu entrar e viu que eu estava sozinho. Percebeu também que minha mãe havia ido embora. Naquele momento a Dona Helena resolveu me criar. Ela me pegou em seu colo e me levou com ela. Ali ela me fez um juramento:
-Minha criança eu prometo nunca abandona-lo, mesmo não tendo condições de te criar você irá comigo para onde eu for.
Ela resolveu me chamar de Raimundo, pois era o nome do pai dela. Dona Helena me levou para uma outra cidade ali perto chamada Sacramento. Essa cidade é maior do que a cidade em que eu nasci. Nós morávamos em um barraco de madeira construído em baixo de uma ponte da cidade.
Dona Helena era conhecida na cidade, pois ela catava papel e latinha para sobreviver.
Oito anos se passaram, eu agora ajudo a Dona Helena, pois ela está cada vez mais cansada e doente. Eu comecei a trabalhar de engraxate, cobrava somente um real para engraxar. Quem me ensinou a engraxar foi o Senhor Antônio, barbeiro da cidade. Senhor sério, mas com uma alma grandiosa. Ele me deixava ficar em sua barbearia e tudo que eu ganhava ficava para mim.
Nós éramos pobres, mas muito felizes. Lembro-me de uma conversa que tive com a Dona Helena. Ela me viu chorando, pois eu só tinha brinquedos usados e me disse:
-O que está acontecendo meu filho?
-Meus brinquedos são todos velhos!
-Não chore Raimundo. Um dia, quando você crescer você será alguém na vida e poderá comprar tudo que você quiser. Nunca desanime e mantenha sempre a esperança, pois com força e esperança com certeza você vencerá.
Embora eu fosse muito novo aquela conversa ficou gravada na minha cabeça. Aquelas palavras me fizeram bem. E eu resolvi que estudaria e trabalharia para poder dar uma vida descente aquela senhora que me criou com tanto carinho.
Na escola, eu era o aluno mais quieto, quase não tinha amigos, pois minhas roupas eram muito velhas. Ficava sempre isolado no canto vendo as outras crianças brincando. Muitas vezes eu voltava para casa chorando, pois não com quem brincar. Os professores não estavam nem ai para seus alunos, uma vez que eles ganhavam mal e tinham muitos alunos para ensinar.
Mesmo assim não desanimei. Toda vez que me pegava pensando em desistir eu lembrava das palavras da Dona Helena.
Agora eu estou com quinze anos, a situação continua difícil. Senhor Antônio morreu e a barbearia foi vendida. Dona Helena está muito doente, já não consegue mais andar. Eu estou tomando conta dela, parei de estudar por causa disso. Eu cato papelão e faço todos os tipos de serviços para poder comprar os remédios de Dona Helena a quem eu tenho uma gratidão imensa.
Eu sempre acordo bem cedo para trabalhar e hoje eu não saí da rotina, às 05h30min da manhã eu já estava de pé, dei os remédios de Dona Helena e sai para trabalhar. Porém eu estava com uma angustia estranha, não sabia o que era.
Ao entardecer, eu voltei para casa e vi que Dona Helena havia piorado. O aperto no coração aumentou, pois inconscientemente já sabia que ela não passaria daquela noite. Eu peguei nas mãos dela e disse:
-Dona Helena, calma! Você irá melhorar. Eu vou até a cidade buscar um médico.
-Não meu filho! Eu sei que minha hora já chegou e que não vai adiantar nada você ir buscar um médico.
-Não diga isso! – disse isso escondendo minha vontade de chorar.
-Só queria dizer que você foi como um filho que tive e que lá em cima estarei olhando por ti.
-Não! A senhora irá melhorar.
-Não vou não. Mas não se esqueça, nunca perca a esperança de que tudo irá melhorar.
Após falar isso eu senti que sua mão ficou fraca e quando olhei em seus olhos pude perceber que ela havia morrido. Não me contive, lágrimas escorreram em meu rosto.
No dia seguinte me preocupei com o enterro. Não tinha dinheiro para fazer um enterro digo de uma mulher guerreira, que batalhou a vida toda e que nunca desistiu de nada. O enterro foi bem simples só eu estava lá. Pedi ajuda ao coveiro do cemitério para levar o caixão. Antes de o caixão ser enterrado eu fiz uma promessa a Dona Helena: a de sempre seguir suas palavras.
Agora estou realmente sozinho no mundo, nada mais me prende nessa cidade. Então decidi ir para capital tentar a vida. Peguei os poucos pertences que tinha e fui para rodoviária. Comprei uma passagem e fui para capital.
Finalmente cheguei à capital, aqui tudo tem proporções maiores, as pessoas são frias e estão sempre com muita pressa, ninguém percebe a sua presença. Não conhecia ninguém lá e estava sem dinheiro e com fome. Fui de comércio em comércio pedindo um emprego, mas ninguém quis me empregar.
Eu não tinha onde morar e então fui ficando numa das praças da cidade e foi nessa praça que eu conheci o João.
João era um moleque marrento, infeliz e revoltado. No começo ele não foi com a minha cara, mas com o tempo nossa amizade se firmou.
Eu comecei a trabalhar com o João, nós vendíamos doces nos ônibus. João vivia reclamando de que isso não era vida.
-Raimundo, eu já estou cansado…. vou fazer algo que vai mudar nossa vida…. chega de ficar vendendo doces, isso não enche barriga de ninguém.
-Que isso João! Tudo vai melhorar é só ter esperança e nunca desistir.
-Esperança? Isso é para quem tem dinheiro!
João já estava decidido, só que eu não sabia o que ele queria fazer. Porém estava certo que as coisas mudariam.
Além dessa atitude de João, outra coisa estava me intrigando. Eu havia percebido que a alguns dias uma senhora estranha, com roupas em farrapos ficava me observando. Para onde eu fosse lá estava ela. Então resolvi ir de encontro a ela e pergunta-la quem era ela.
-Senhora! Quem é você?
Não adiantou de nada, ela saiu correndo e eu a perdi de vista. Mas continuei intrigado com isso.
No dia seguinte, João estava estranho, parecia que já estava maquinando algo em sua mente.
-O que foi João? Vamos trabalhar.
-Me deixa quieto Raimundo! Não vou mais vender doces.
É realmente ele já havia planejado algo, só que eu ainda não sabia o que era. Eu estava com medo, não por mim, mas pelo o que João poderia fazer. Eu fui trabalhar, mas fiquei com tudo isso na minha cabeça me atormentando o dia todo. Voltei mais cedo e encontrei João lá na praça. Ele estava transtornado, mas já tinha sua decisão tomada.
-Raimundo, chega aqui!
-Diga!
-Já sei o que vai mudar nossa vida!
-O que João?
-Olha isso aqui!
-Isso é uma arma. Você ficou maluco?
-Já que ninguém ajuda a gente, então eu vou tirar aquilo que é meu. Você vai entrar nessa comigo?
-Não! E nem você vai nessa, a gente pode trabalhar em outras coisas. A gente pode vigiar carros na rua. Se liga João!
De nada adiantou a nossa conversa. João saiu de perto, mas não voltou atrás em sua decisão.
Eu fiquei mais preocupado ainda, mas sabia que nada iria fazer João mudar de idéia.
Até que, infelizmente, o tão planejado dia chegou para o João. Ele estava na Rua São Vicente, a rua mais rica da Capital, ele levou a arma consigo. Ele ficou a manhã toda por lá e não conseguiu por seu plano em prática. Porém no início da tarde, João viu uma senhora muito elegante saindo de uma das lojas da rua, ela estava usando um colar muito bonito e brilhante. Ele não sabia que essa senhora se chamava Mercedes, ela possui um alto prestígio e influência.
Quando ela está quase entrando em seu carro, João chega e a aborda.
-Calma aí. Cala a boca. Se gritar eu te dou um tiro.
-Não faça nada, leve o que você quiser.
-Me dá o colar que nada vai acontecer com você.
-Toma!
-Agora fica quietinha aí! Não grita se não vou meter bala na senhora.
João não sabia que isso realmente iria mudar as nossas vidas, principalmente a minha. Ele chega à praça e me vê vendendo doces e me chama para conversar, percebi que ele estava nervoso.
-Raimundo, olha isso aqui!
-Cara, o que você fez? Como você conseguiu isso?
-Tirei de uma madame lá na São Vicente.
-Você roubou? Você perdeu a noção do certo?
-Já estou cheio de ser certinho! Agora nossas vidas irão mudar. Pode ter certeza.
Nesse momento pude perceber a presença daquela mesma mulher que ficava me olhando. Ela estava no outro lado da rua me observando. Mas eu estava tão preocupado com que o João fez que quando tive a vontade de ir falar com ela era tarde, ela já tinha desaparecido.
A Dona Mercedes ao ser roubada foi direto para delegacia e lá falou com o policial Ribeiro. Ele é um policial arrogante, que trata as pessoas de acordo com o nível social das mesmas.
-Pois não, posso ajudar a Senhora?
-Claro! Fui roubada na São Vicente.
-Quem a roubou?
-Foi um moleque de mais ou menos 18 anos. Ele levou meu colar.
-Espere aqui que o trarei!
O policial Ribeiro foi à caça de quem havia roubado a Senhora Mercedes.
Durante a sua ronda, ele passou pela praça onde nós estávamos e percebeu que João ao vê-lo escondera algo.
O policial saiu do carro e veio ao nosso encontro. Nós estávamos sentados no canto da praça. Ele percebeu que João ficou nervoso e vou logo perguntando:
-Moleque! O que você escondeu aí?
Eu tratei logo de responder:
-Nada!
-Levantem agora!
O policial não achou o colar da Senhora Mercedes, pois João havia jogado o colar atrás do banco em que a gente estava sentado. Mas mesmo assim ele nos levou para delegacia.
Chegando lá, ele nos colocou de frente para Dona Mercedes. Ela reconheceu o João.
-Foi este moleque que me roubou policial.
Naquele momento percebi que estava tudo perdido, que não restava alternativa a não ser fugir. Foi o que nós tentamos fazer.
-João! No primeiro vacilo do policial a gente sai correndo.
Nós fugimos quando o policial foi conversar com a Dona Mercedes. Ele correu atrás da gente. Quando finalmente achávamos que estávamos livres, pois estávamos na rua, o policial sacou uma arma e deu cinco tiros.
Só tive tempo de escutar um grito alto:
-Cuidado!
Quem gritou foi a mesma mulher que eu sempre pegava me observando. Porém três desses tiros pegaram em mim. Eu cai no chão, no meio da rua. João conseguiu fugir, ele nem olhou para trás.
O policial Ribeiro se aproximou de mim com a Dona Mercedes e disse:
-O colar da senhora não está com esse pivete! Mas esse aqui não roubará mais ninguém.
-Ele deve ter dado para o outro que fugiu.
-Não fique nervosa, eu vou pegar o outro.
Eu estava ali no chão, nas minhas últimas forças. Minha vida toda passou em minha mente. Só pude lembrar da Dona Helena e da mãe que eu não havia conhecido. Quando estava quase morrendo, senti que alguém segurou minha cabeça e pude escutar um choro. Era ela, aquela mulher que sempre me observou. Ela começou a falar comigo.
-Não morra! Eu sei que não pude te criar, mas quero que entenda meus motivos. Não tinha como ficar com você e seus irmãos. Acorde! Eu sou sua mãe. Nunca sai de perto de ti. Eu ficava te observando para te proteger. Eu me arrependo do que fiz. Quero que você me desculpe. Me perdoa meu filho.
Não pude acreditar que era minha mãe verdadeira, mas eu a perdoei. Sei que Dona Helena está me esperando e vou orgulhoso, pois cumpri até o final tudo que ela me ensinou.
Agora eu partirei feliz, pois mesmo que por um pequeno instante, eu conheci minha mãe. A última coisa que eu senti foi uma lágrima batendo em meu rosto e palavras ditas pela minha mãe.
-Descanse em paz meu filho querido!

Fim!

One Comment

  1. Muito bonita essa mensagem, fiquei muito emocionada com essa historia, pois tem apenas um ano que perdi minha mae, e sei co-mo é dificil nao ter mae. Mesmo ficando outros parentes nada substitui a prenche a falta que uma mae faz. Eu sempre digo que quem sua mae faça tudo por ela, e escute seus conselhos, porque nada que ela disser irá te prejudicar porque com crteza ela só quer o seu bem. Eu me arrependo muito das vezes que respondi a minha mae se tivesse ouvido os conselhos dela muita coisa na vida nao tinha acontecido, ou seja muitos sofrimentos eu nao teria sofrido. Adorei a mensagem. Parabens!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: